28 de março de 2026

Dor escolhida

A própria vida dói em mim
No fim do amor que eu quis
E pareço não ter escolha
A não ser aceitar o que me fere

Você está distante
E toda proximidade que quero
Se mistura a uma ansiedade
Que me afoga

Apenas queria saber
Que você me ama
E, de alguma forma,
Diminuir essa distância

Meu coração tantas vezes ferido
Tem uma ferida aberta
Onde você facilmente entrou
E se sair, tão mais funda ela ficará

Nada cobro de ti,
O amor verdadeiro deixa livre
Mas não posso negar
Meu peito desnudo

Ele se abriu para você 
Na minha escolha
E cabe a mim
Essa dor.

20 de março de 2026

Vaso despedaçado

Tudo se racha nesse mundo
E tudo se estilhaça.
É como um vaso de barro arremeçado com força
E ninguém pode reunir os pedaços.

Nada mais que um olhar desamparado,
Perdido e orfão,
Chorando entre os escombros
De um mundo sem sentido.

Terra de ninguém,
Cidade fantasma...
Quem diria o que se viu aqui,
De bonito, ou de extrema vulgaridade e horrível?

Quem daria um centavo
Por esse roto e maltrapilho pano?
Abandonado, empoeirado...
No entanto, alguém se importou.

E as lágrimas viraram um rio
Misturadas com vida.

17 de março de 2026

Amar o mar

O amor é estranho
Pode começar com um olhar
E se tornar um mar
Um oceano vasto

Então, não sabemos
Se navegaremos tranquilos
Ou se tempestades bravias 
Se lançarão contra nossa embarcação

O coração tão marcado
De outras navegações 
Que prometiam esperanças
E quase nos naufragam

Uma embarcação combalida no porto
O vento a soprar intensamente
Mas para onde me levará?

Devo arriscar levantar velas
E deixar o vento beijá-las?
E sofrer a salinidade do mar

Na verdade, a marejar meus olhos?

14 de março de 2026

Adversidade

As coisas que se sucedem
Nas ondas, nos fluxos
Sempre se emaranham em algum momento
Numa coisa que não se pode nomear

O mistério do que insiste
Na pele, no tato e no coração,
Mas não une, antes despedaça
Qualquer expectativa de amor.

Porque o que ama
Une, junta
E o que é despedaçado em mim
Fragmenta-se ainda mais.

É impermanência imanente,
E o que transcende a mim
Parece sempre um devir a se distanciar
A cada passo que dou em sua direção.

Então me pergunto
Dou o próximo passo?
Acalento em mim a singeleza
Daquela expectativa?

Isso diz a mim:
Até onde vai a minha fé naquele
Que é a essência e fonte do amor?
O quão disposto estou?

Enfrentar o injusto juiz,
Dia após dia, como aquela viúva,
Na adversidade do adversário
Temporal 
Estou aqui só para escrever algumas palavras. Dizer que meu coração às vezes parece querer me engolir, tamanha ansiedade que sinto. Tudo nesse mundo é ligeiro demais, se pede demais e nada se farta. Será que alguém poderia parar o relógio do tempo? Quero apenas ter descanso e alívio naquele que prometeu isso em um convite. Mas eu sou torto dentro de mim mesmo, e um poeta já escreveu isso. Vai ser gauche na vida. Sou torto e sinuoso, sou caudaloso rio em correnteza a transbordar nas bordas, e não me acalmo, preciso chegar ao mar, então o mar me conterá, me acalmará, me pacificará. E o mar, imensidão do mar, no aconchego do teu peito, do teu abraço e do seu singelo beijo.

12 de março de 2026

Gestação

Mascare todo dia o que tu sentes
Não reclames
Tens mais que o suficiente
Em todo momento em que te humilham
Force suas pernas a cada momento
E tua cabeça

Foste puxado pela cabeça, aliás
Entre forças e dor intensa
Pois então que se force um novo nascimento
Que as dores venham a se tornar flores

Venha à luz então entre tantas lutas
Ainda que haja o desmaio 
Que te puxem para fora
E sobreviva aquela que te dá a luz

Conduzes a vida angustiado?
Que tuas orações sejam conhecidas
Estejam sempre chorar, de plenos pulmões
Até que te acalmes depois de alimentado
No seio daquela que te gerou.

Saberás então, não foi em vão.
Enquanto não fostes gerado, gestado,
Não te acalmes tão fácil
Porque haverá algo novo
Vindo com a força da inevitável
Aurora.