4 de abril de 2026

"Eu sei de quase tudo um pouco, e quase tudo mal". Kid Abelha

Por que escrevo tanto aqui? Não deveria dar uma justificativa a ninguém, mas quero dizer que é porque sinto demais. Meu pensamento passeia até meu coração doer, então ele, de alguma forma, atenta para o coração, e precisa pensar o que sente, reformular, escrever. Se você olhar bem, verá que esse mundo tem um peso quase insuportável em nossa consciência — leia Eclesiastes, isso que digo não é novo —, é uma experiência compartilhada. Peço perdão pelos poemas, ou o que chamo de poemas, um pouco depressivos, desesperançosos... Mas é quando meu coração pesa, ou está cheio demais e precisa transbordar em alguma linguagem. Alguns transbordam na música, outros em pinturas, eu transbordo minha loucura com palavras. Às vezes acho minhas poesias bem pobres, nascem de alguma coisa em mim que descrevo com imprecisão. Clareza e distinção nas ideias, como diria Descartes, mas isso é tudo que, como escritor de alguma coisa, eu não tenho.

Albert Camus disse que esse mundo é absurdo. Ele tem razão. Quem olha para esse mundo de guerras sem sentido, de violências inaudíveis, silenciadas, inefáveis, onde crianças choram e são traumatizadas entre escombros de guerras e perda dos pais e diria: encontro sentido no mundo? A solução de Camus é a revolta que cria um sentido, embora não haja sentido. Além dele, há Schopenhauer, que diz ser a vontade cega e irracional. Não há racionalidade nesse mundo, nossa vontade é que representa algum sentido a ele. Entretanto, Schopenhauer tem fama de pessimista e mal humorado, para ele somos demônios uns dos outros e dos animais também.

Como disse, não espere de mim clareza, distinção, termos precisos e conceitualmente bem colocados. Essa não é a pretensão do que escrevo. Tento resumir como vejo as coisas nesse momento, talvez embaçadas pelos meus sentimentos.

A única ideia que tento solucionar aqui, é se sou sóbrio no que escrevo ou um um ébrio tolo e decadente a cambalear pela vida e cantarolar músicas sobre sua condição tragicômica.

Voltando a Eclesiastes, ele fala da vida com realismo, ele não doura a pílula, como dizem. Mas ele fala sobre Deus, diz que sem Ele ninguém pode desfrutar a vida de fato. Isso me faz lembrar de João 1:3, "todas as coisas foram feitas por meio dele e, sem ele, nada do que foi feito se fez". A vida só encontra razão última em Jesus Cristo, porque ele adentrou no absurdo desse mundo com outro absurdo, chamado por são Paulo de loucura de Deus, quando ele diz que os gregos, que buscavam sabedoria, não conseguiam compreender um Deus que encarna e morre em uma cruz, então ele diz que a loucura de Deus é mais sábia que os homens e sua fraqueza mais forte que esses homens. 

Não vou me corrigir nesse texto. Eu sofro de TOC. Não vou ficar tentando ver onde estou errando. Se errei, me perdoe. Peço essa gentileza, caro leitor. Sua presença até aqui já me honrou, já é uma benção. Então que Deus o abençoe.

"Eu sei de quase tudo um pouco, e quase tudo mal." Kid Abelha

Folhas secas

Toda minha poesia
Tudo o que escrevo
É uma tentativa de exorcizar
Toda essa dor interna

De sonhos não realizados
Na crueza desse mundo tão vil
De mortes banais
De juízes de togas pretas

Que parecem com Caronte
Impassível, a remar 
Levando todas as almas ao mesmo lugar
De escuridão

Ninguém atenta para isso
Tudo é esquecido
Um silêncio tumular 
Uma insinuação do vento a assoviar

Uma folha seca a se despender
No início do outono
E apenas se pensa
E o olhar paralisa 

Ele não passeia
Só vê folhas secas.

3 de abril de 2026

Desejo de vida


E se eu pudesse
Rose Erkul rose_ekl
Mergulhar em toda beleza deste mundo
Plantar dentro de mim
O dourar da relva ao sol do amanhecer
E deixar pelos meus ouvidos
Entrar até o fundo do meu coração
Esses cantos de passáros que anunciam a aurora
Caminhando como caminhei
Deleitando minhas vistas assim
Com tudo feito pelo Criador
Buscando dessa maneira não só o quadro pintado
Mas ver o artista no momento que pinta
Ver suas mãos pincelando a pintura

O que eu busco é vida em mim
Que encontro naquele que disse ser a vida
A cada fôlego que tomo
E a cada fluxo de sangue
Bombeado pelo meu coração.

Sarar

Aqui estou eu
Quebrei-me em um dia, e machucado
Clamei a quem machuquei

Machucado, me ouviste na minha mágoa profunda
Causada por mim mesmo
Aguda dor sentida
Ferida no meu eu

Só busco o amor e a paz, que posso sentir no Teu olhar
De perdão sobre mim
Mantido assim, para me guiar

Perdoa-me então
Por tão grande dívida
Pois, da mesma forma,
Quero perdoar e amar

Mesmo a quem me machucou.

28 de março de 2026

Dor escolhida

A própria vida dói em mim
No fim do amor que eu quis
E pareço não ter escolha
A não ser aceitar o que me fere

Você está distante
E toda proximidade que quero
Se mistura a uma ansiedade
Que me afoga

Apenas queria saber
Que você me ama
E, de alguma forma,
Diminuir essa distância

Meu coração tantas vezes ferido
Tem uma ferida aberta
Onde você facilmente entrou
E se sair, tão mais funda ela ficará

Nada cobro de ti,
O amor verdadeiro deixa livre
Mas não posso negar
Meu peito desnudo

Ele se abriu para você 
Na minha escolha
E cabe a mim
Essa dor.

20 de março de 2026

Vaso despedaçado

Tudo se racha nesse mundo
E tudo se estilhaça.
É como um vaso de barro arremeçado com força
E ninguém pode reunir os pedaços.

Nada mais que um olhar desamparado,
Perdido e orfão,
Chorando entre os escombros
De um mundo sem sentido.

Terra de ninguém,
Cidade fantasma...
Quem diria o que se viu aqui,
De bonito, ou de extrema vulgaridade e horrível?

Quem daria um centavo
Por esse roto e maltrapilho pano?
Abandonado, empoeirado...
No entanto, alguém se importou.

E as lágrimas viraram um rio
Misturadas com vida.

17 de março de 2026

Amar o mar

O amor é estranho
Pode começar com um olhar
E se tornar um mar
Um oceano vasto

Então, não sabemos
Se navegaremos tranquilos
Ou se tempestades bravias 
Se lançarão contra nossa embarcação

O coração tão marcado
De outras navegações 
Que prometiam esperanças
E quase nos naufragam

Uma embarcação combalida no porto
O vento a soprar intensamente
Mas para onde me levará?

Devo arriscar levantar velas
E deixar o vento beijá-las?
E sofrer a salinidade do mar

Na verdade, a marejar meus olhos?

14 de março de 2026

Adversidade

As coisas que se sucedem
Nas ondas, nos fluxos
Sempre se emaranham em algum momento
Numa coisa que não se pode nomear

O mistério do que insiste
Na pele, no tato e no coração,
Mas não une, antes despedaça
Qualquer expectativa de amor.

Porque o que ama
Une, junta
E o que é despedaçado em mim
Fragmenta-se ainda mais.

É impermanência imanente,
E o que transcende a mim
Parece sempre um devir a se distanciar
A cada passo que dou em sua direção.

Então me pergunto
Dou o próximo passo?
Acalento em mim a singeleza
Daquela expectativa?

Isso diz a mim:
Até onde vai a minha fé naquele
Que é a essência e fonte do amor?
O quão disposto estou?

Enfrentar o injusto juiz,
Dia após dia, como aquela viúva,
Na adversidade do adversário
Temporal 
Estou aqui só para escrever algumas palavras. Dizer que meu coração às vezes parece querer me engolir, tamanha ansiedade que sinto. Tudo nesse mundo é ligeiro demais, se pede demais e nada se farta. Será que alguém poderia parar o relógio do tempo? Quero apenas ter descanso e alívio naquele que prometeu isso em um convite. Mas eu sou torto dentro de mim mesmo, e um poeta já escreveu isso. Vai ser gauche na vida. Sou torto e sinuoso, sou caudaloso rio em correnteza a transbordar nas bordas, e não me acalmo, preciso chegar ao mar, então o mar me conterá, me acalmará, me pacificará. E o mar, imensidão do mar, no aconchego do teu peito, do teu abraço e do seu singelo beijo.

12 de março de 2026

Gestação

Mascare todo dia o que tu sentes
Não reclames
Tens mais que o suficiente
Em todo momento em que te humilham
Force suas pernas a cada momento
E tua cabeça

Foste puxado pela cabeça, aliás
Entre forças e dor intensa
Pois então que se force um novo nascimento
Que as dores venham a se tornar flores

Venha à luz então entre tantas lutas
Ainda que haja o desmaio 
Que te puxem para fora
E sobreviva aquela que te dá a luz

Conduzes a vida angustiado?
Que tuas orações sejam conhecidas
Estejam sempre chorar, de plenos pulmões
Até que te acalmes depois de alimentado
No seio daquela que te gerou.

Saberás então, não foi em vão.
Enquanto não fostes gerado, gestado,
Não te acalmes tão fácil
Porque haverá algo novo
Vindo com a força da inevitável
Aurora.