3 de outubro de 2026

Tormentos noturnos

Pensamentos sujos
Vêm afligir-me 
Quem dera fossem apenas sujos,
São imundos.

Demônios que chegam sorrateiramente à noite
Roubaram-me o sono
E hoje esconderam-no em químicas
São os alquimistas que criaram a poção dos meus tormentos
E assim, cinicamente, trazem remédios de alívio

Cedo na vida,
Quando a escuridão densa turbou-me
Voltava para casa aflito
Ao som do trem
Que me conduzia
Em ânsias de vômito

Meu pensamento queria sair pela boca
Aquela crueldade não era minha
Confuso, a engolia

Espasmos da minha alma atormentada
De passados angustiantes
E futuros frustrantes

Levaram-me sempre a procurar alívio e refúgio
Clamava àquele homem dos mais aflitos o mais afligido
Ia a ele para alívio, afligidamente, e ele ainda mais afligido
Vendo a minha aflição, dizia-me: segue-me.

Está tudo tão pesado, escarnecem de mim
Solitário, sem amigo,
Me esquecem

Que quis companhia, que quis amparo
Mas esse mundo é desamparado e desconfiado
Todos somos estranhos
Não há bom dia nem gentilezas
Há mais e mais estranhezas

Então o siléncio,
Junto do sofrimento.
Quem dirá em bilhões de pessoas?
Eu era, a penas, mais um.

4 de setembro de 2026

Turbulência

O amor é uma coisa estranha
Que mexe com o coração
As entranhas se remexem
E você esquece quem é

Porque é como estar bagunçado
Por dentro
A vida lhe chama ao risco
Mas é como vertigem diante do abismo

Você não sabe o que fazer
O desejo é se afundar no desejo
Do beijo
É como se a terra mesma
Fosse faminta de amantes
E os engolisse

Antes fugir, porque nada se entende
Nascem estrelas nos céus
Distantes, 
Morrem estrelas, colapsam
E viram do avesso

O amor não se comporta nele mesmo
Ele se revolve,
Em luz, em trevas, em nova luz
E nada dele se compreende

Ele sente, e esse sentir
Não tem fim
E mesmo na eternidade
Buscar-se-ia mergulhar
Num oceano de olhar

Profundo, turvo e límpido
A libido é apenas um complemento
De algo que atrai
E, turbulento,
Move tudo, sem ser conhecido de tudo

O poeta tolo fala
E permanece incompreendido
Assim como o amor,
Que lhe escapa
Mesmo estando dele
Tão perto

Tudo e nada se chocam
E deles vem algo
Novo e belo
Mas não é possível distinguir
Apenas contemplar
Admirar

22 de agosto de 2026

Moral de rebanho

Moral de rebanho (22 de agosto de 2026, noite)

Vi meus dias se consumirem
Pela moral de rebanho.
Me submeter.
Para poder ser
Esqueci de mim.

Querendo ser amado
Por quem deveria amar
E me odiou.
Meu coração quebrado
Desprezado.

Então a revolta
E a confusão me impulsionavam
Para o poço do desespero.

Meu coração enganoso,
Ferido e confuso,
Enganava-me mais.
Eu não era mais ovelha,
Mas um lobo ferido.

Sou estranho a mim
E o que quero ser
Reside numa liberdade difícil
De se obter.

Minha cela é úmida e fria
E profunda é a ferida.
Enfaixo-me todo dia
Com trapos de prisioneiros
Que estavam aqui
Antes de mim.

Aguardo todo o dia
O pouco da luz do sol
Que me aquece por um tempo.

Digo novamente
Não me importando mais
Com o que penso
Com o que você pensa:

Sou um lobo na estepe,
Não mais ovelha no pasto.
Esse rebanho que me olhou estranho
Me fez pensar assim 

No fim, de que modo pensamos diferente?
Se todo pensamento subsiste, antes,
Como pensamento de outrem.

Acaba o dia
E o frio desta cela
Gela-me os ossos
E a alma.

24 de julho de 2026

Distâncias

Por que você ama?
Sou eu perguntando a mim
Por que insiste em um sonho
Tão distante?

Se tivesse o dom da pintura
Quantos quadros de amor
Abraços e mãos dadas
Pintaria?

Sou aquele que não diz muito
Depois de ter dito tudo
Encerro em meu coração
Meu amor por ti

E tu, talvez, saibas,
Mas tão distante
Dos meus braços que querem te envolver

E assim, algo permanece
E se esquece de esquecer
Lembra
De tudo que desejava ver

Sou uma ave
Distante
Ferida na tempestade desse mundo
Sem o ninho que encontraria
No teu abraço

9 de junho de 2026

Sapato velho

De repente
Vão dizer que você é egoísta
Porque deixou de dar atenção
Àqueles que não estavam lá
Quando você chamou aquele sentimento
Que despertaram em você

Você estava lá, no silêncio, do lado
Dizendo que se importava
Mas te trataram como a um sapato
Velho e esquecido

Alguém poderia, descalço
Encontrar-te
E feliz calçar-te

Achei um sapato velho e confortável
Deixa-me lustrá-lo

Você percebe,
Não eram os seus olhos, não era o desprezo
Era que alguém precisava te encontrar
E não mudar nada
Nem mesmo o cadarço
E só te lustrou
Vestiu
Sorriu

É como encontrasse algo precioso
Perdido faz tempo

Como o sapateiro que o confeccionou
O visse vestido
Então, satisfeito, dissesse
Ficou muito bom.

21 de abril de 2026

O amor – Khalil Gibran

O amor – Khalil Gibran

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
“Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

Do livro: O Profeta – Gibran Khalil Gibran

19 de abril de 2026

Flor opaca

Não espero mais resgate
Desse estado em que me encontro
Embora eu sinta que doa 
Me sentir assim

Tão desolado de mim
Tão desamparado

Não espero fala de ti
Deixe-me no silêncio
Do teu esquecimento

Esqueça-me 
Nesse mundo tão esquecido
Nenhuma outra lembrança
Venha a tua mente

Nenhum sorriso
Nenhum convite
Como se nada tivesse acontecido
De bom ou ruim

Apague tudo
Porque eu mesmo não quero lembrar
Quero estar entorpecido
Nesse estado de opacidade

A mente opaca
Como a flor abandonando sua cor
Pois aos poucos murcha
E morre

Tudo perece nessa vida
Pelo abandono
Da própria vida.