24 de outubro de 2026

Barro na olaria

Você pode ser o primeiro da fila a me julgar
Pois sou pecador
E por me perceber assim
Com a dor minha
Me tratar com desprezo

Tenho medo da fúria de Deus
Das taças da sua ira
Ferida, minha pele
Dói

Estou fraco e quebrantado
Porque sou só uma criação
Sou vaso de barro
E meu coraçâo se derrete como cêra

Mais uma vez na mâo do oleiro
Que ele possa me refazer.

9 de outubro de 2026

Jonas

Nâo sufoque a minha existência
Sou teu irmão
Nasci nesse mesmo solo que você nasceu
Então me acotevele

Vele por mim, na noite sombria que atravesso
O vento sopra pra longe do porto
Uma frágil embarcação
Não seja a onda a arrebentá-la

Sou teu irmão, acredite...
Seria todo teu alívio,
Mas temo que o Jonas desse navio
Sejamos nós todos.

Se, então, me arremeçar para fora desta embacação,
Rogue para que eu permaneça vivo.
Seria apenas um covarde fujão
Aquele que carece de misericórdia?

Pode ser que esse coração,
Inundado e prestes a naufragar
Na discórdia dos homens
Encontre um pouco de alívio.

Portanto, não seja meu inimigo,
Arremessa-me no mar
Rogando pela minha alma.


3 de outubro de 2026

Tormentos noturnos

Pensamentos sujos
Vêm afligir-me 
Quem dera fossem apenas sujos,
São imundos.

Demônios que chegam sorrateiramente à noite
Roubaram-me o sono
E hoje esconderam-no em químicas
São os alquimistas que criaram a poção dos meus tormentos
E assim, cinicamente, trazem remédios de alívio

Cedo na vida,
Quando a escuridão densa turbou-me
Voltava para casa aflito
Ao som do trem
Que me conduzia
Em ânsias de vômito

Meu pensamento queria sair pela boca
Aquela crueldade não era minha
Confuso, a engolia

Espasmos da minha alma atormentada
De passados angustiantes
E futuros frustrantes

Levaram-me sempre a procurar alívio e refúgio
Clamava àquele homem dos mais aflitos o mais afligido
Ia a ele para alívio, afligidamente, e ele ainda mais afligido
Vendo a minha aflição, dizia-me: segue-me.

Está tudo tão pesado, escarnecem de mim
Solitário, sem amigo,
Me esquecem

Que quis companhia, que quis amparo
Mas esse mundo é desamparado e desconfiado
Todos somos estranhos
Não há bom dia nem gentilezas
Há mais e mais estranhezas

Então o siléncio,
Junto do sofrimento.
Quem dirá em bilhões de pessoas?
Eu era, a penas, mais um.

4 de setembro de 2026

Turbulência

O amor é uma coisa estranha
Que mexe com o coração
As entranhas se remexem
E você esquece quem é

Porque é como estar bagunçado
Por dentro
A vida lhe chama ao risco
Mas é como vertigem diante do abismo

Você não sabe o que fazer
O desejo é se afundar no desejo
Do beijo
É como se a terra mesma
Fosse faminta de amantes
E os engolisse

Antes fugir, porque nada se entende
Nascem estrelas nos céus
Distantes, 
Morrem estrelas, colapsam
E viram do avesso

O amor não se comporta nele mesmo
Ele se revolve,
Em luz, em trevas, em nova luz
E nada dele se compreende

Ele sente, e esse sentir
Não tem fim
E mesmo na eternidade
Buscar-se-ia mergulhar
Num oceano de olhar

Profundo, turvo e límpido
A libido é apenas um complemento
De algo que atrai
E, turbulento,
Move tudo, sem ser conhecido de tudo

O poeta tolo fala
E permanece incompreendido
Assim como o amor,
Que lhe escapa
Mesmo estando dele
Tão perto

Tudo e nada se chocam
E deles vem algo
Novo e belo
Mas não é possível distinguir
Apenas contemplar
Admirar

22 de agosto de 2026

Moral de rebanho

Moral de rebanho (22 de agosto de 2026, noite)

Vi meus dias se consumirem
Pela moral de rebanho.
Me submeter.
Para poder ser
Esqueci de mim.

Querendo ser amado
Por quem deveria amar
E me odiou.
Meu coração quebrado
Desprezado.

Então a revolta
E a confusão me impulsionavam
Para o poço do desespero.

Meu coração enganoso,
Ferido e confuso,
Enganava-me mais.
Eu não era mais ovelha,
Mas um lobo ferido.

Sou estranho a mim
E o que quero ser
Reside numa liberdade difícil
De se obter.

Minha cela é úmida e fria
E profunda é a ferida.
Enfaixo-me todo dia
Com trapos de prisioneiros
Que estavam aqui
Antes de mim.

Aguardo todo o dia
O pouco da luz do sol
Que me aquece por um tempo.

Digo novamente
Não me importando mais
Com o que penso
Com o que você pensa:

Sou um lobo na estepe,
Não mais ovelha no pasto.
Esse rebanho que me olhou estranho
Me fez pensar assim 

No fim, de que modo pensamos diferente?
Se todo pensamento subsiste, antes,
Como pensamento de outrem.

Acaba o dia
E o frio desta cela
Gela-me os ossos
E a alma.

24 de julho de 2026

Distâncias

Por que você ama?
Sou eu perguntando a mim
Por que insiste em um sonho
Tão distante?

Se tivesse o dom da pintura
Quantos quadros de amor
Abraços e mãos dadas
Pintaria?

Sou aquele que não diz muito
Depois de ter dito tudo
Encerro em meu coração
Meu amor por ti

E tu, talvez, saibas,
Mas tão distante
Dos meus braços que querem te envolver

E assim, algo permanece
E se esquece de esquecer
Lembra
De tudo que desejava ver

Sou uma ave
Distante
Ferida na tempestade desse mundo
Sem o ninho que encontraria
No teu abraço

9 de junho de 2026

Sapato velho

De repente
Vão dizer que você é egoísta
Porque deixou de dar atenção
Àqueles que não estavam lá
Quando você chamou aquele sentimento
Que despertaram em você

Você estava lá, no silêncio, do lado
Dizendo que se importava
Mas te trataram como a um sapato
Velho e esquecido

Alguém poderia, descalço
Encontrar-te
E feliz calçar-te

Achei um sapato velho e confortável
Deixa-me lustrá-lo

Você percebe,
Não eram os seus olhos, não era o desprezo
Era que alguém precisava te encontrar
E não mudar nada
Nem mesmo o cadarço
E só te lustrou
Vestiu
Sorriu

É como encontrasse algo precioso
Perdido faz tempo

Como o sapateiro que o confeccionou
O visse vestido
Então, satisfeito, dissesse
Ficou muito bom.