18 de fevereiro de 2026

Entorpecimento

Escrever poesia é uma atividade para aliviar minha dor
O torpor que sinto dentro de mim
Sinto-me um zumbi
Um morto-vivo, mais morto que vivo

Toda intensidade de vida guardada
Exaltada em meus olhos
Glorificada na criação
Na caminhada firme dos meus pés

Agora, entorpecida,
Uma dor que não queria tão anestesiada

Por que ter vida senão for para ser vivida
Essa minha vontade e sina
De querer encontrar a eternidade em um momento
Tão fugídio de mim.

Mas ainda assim, querendo viver,
Abrir os olhos amanhã de manhã
E recuperar durante o dia
A minha própria vida.

Aviltada por mim,
E castigada.
Devotada àquele instante,
Que não surge mais.

A fonte dos meus olhos seca,
A aridez invade minha alma,
Sou deserto, inabitado e frio,
Na escuridão. No raiar do dia,
Sofreguidão.
Coração, você pulsa,
Numa alma confusa.
E invoca a cada batida,
A mesma vida estilhaçada,
Repetida nesses meus versos,
E eu invoco e clamo, contigo,
Perdido nesse vazio tão preenchido.

Espero vida, clamo vida,
Como quem sente tanta sede.
Apenas um copo d'água,
Dessedento.
Então, busco refrigério,
É só isso,
Um lugar e um descanso...

8 de janeiro de 2026

Ilusão

Minha alma se estragou.
Sou um trapo rasgado e sujo
Em uma casa velha e esquecida,
Largado em um canto escuro.

O que havia de vida aqui?
Para que servi?
Alguém um dia limpou a vidraça
E viu um casal de pássaros e sonhou...

Trouxe a papéis vívidos sonhos 
Escritos em linhas poéticas
E alguém se apresentou,
Uma ilusão.

Oxalá fosse verdade
O que se escrevia ali,
O tempo passou
É hoje, aqui, não há mais nada.

Um amor não vivido,
Um canto esquecido.

25 de dezembro de 2025

O que nâo pude

Me desculpe
Se não consigo ser melhor,
Se nao consigo dar algo 
Melhor do que isso.

Eu lhe digo,
Do coração,
Se eu pudesse
Faria o melhor para deixar-lhe satisfeito.

Vim a um mundo de muitas dádivas,
Dentre elas você,
Mas não consigo retribuir,
Embora me esforce
Até romper alguma fibra do meu coração.

Ele pulsa torto,
Desconjuntado...
Aceite o que posso lhe dar,
É o que eu pude

Com toda força que tive
E não tive.

E assim,
Espero que lembre de mim,
Bem, em paz,
No teu próprio coração. 

23 de dezembro de 2025

Em vão?

Escrever o que minha alma sente, como se alguém se importasse com isso. O que é a minha vida nesse mundo? Qual o tempo da minha vida? Quando estiver em túmulo frio, que diferença fará saber disso? Todo amor parece vazio quando tocado pela morte. Se tudo no fim será morte, o que importa esse momento ou o que virá? Mas se de alguma forma existisse um amor intenso e verdadeiro que pudesse condensar em um belo instante toda a eternidade, nada disso seria em vão.

Essa vida não seria vã.

E mereceria o nome de vida.

6 de dezembro de 2025

Idiota

Sinta-se um idiota
Por ser você
Em um mundo em que se é
Tudo fora de si

O idiota acorda para dentro
E o mundo adormece para fora
E falam de todos 
E todo mundo é estranho

Todos são alguma caricatura
Parecem com algo
Então seja um idiota
No melhor sentido da palavra 

Volte-se para si
E quando sentir vergonha 
Dance

1 de dezembro de 2025

Só de olhar para você,
Minha face se ilumina e sorri.
Você me alegra o coração,
A um mar de distância.

25 de novembro de 2025

Ei amigo, você de cabeça para baixo, não fique assim. Você sabe né? As pessoas, essas mesmas que desenrolam um tapete vermelho na sua frente... Nem te perceberão à beira da calçada, você ficará invisível. Portanto, despreze, despreze qualquer honraria humana.

Sabe-se lá, não é verdade?

A verdade foi coroada de espinhos e cuspida. E queres ainda algo? Contente-se amigo meu, mesmo que, aparentemente, por um tempo, o contentamento estiver longe de você. Não ligue, deixe passar tudo, porque passará, e bem depressa.

Um louco curado

Eu disse que tinha algo errado em mim
Algo que não entendia
Um sentimento triste me invadia
E eu não podia saber o que acontecia

Nessa vida toda torta
De sons estranhos e gritos
Que invasivos atravessam meus tímpanos

Eu fui a um alienista
Ele não era um alienado descentrado no universo
Estava muito certo de seu centro
Equilibrado de analista

Os remédios, ele disse, tome-os
Converse com alguém, revele-me seus sentimentos
Lágrimas são salgadas eu sei
Seus segredos, guardados

Mas de alguma forma eles voaram
Como águias acima de nuvens
Avistando a lua lunática no céu estrelado

Queres ser curado tolo homem
Aceita essa tua condição humana
Tresloucada no mundo normal
Que mal de fato o assola?

Aceita ser esse louco interno
Aceita que são tão loucos como tu
Nesse asilo do mundo
Homens sãos e centrados
Colocam-te a camisa de força
Bruta no imundo mundo

Exilado no asilo da tua alma
Entende-te narcotizado
Nada podes fazer
Mas ria e deixe que riam de ti

Sejas um amor absurdo
Que ama o não amado
Que és tu mesmo.
Sê curado desse teu mal.

12 de novembro de 2025

Pássaro gracioso

Eu sei que percebi
Seu ar de graça, seu sorriso
E tentei me aproximar
Daquele pássaro belo que me apareceu
Mas tudo na natureza, parece cindido de nós
O estado de graça nos escapa
Como o pássaro foge rapidamente
Alvoroçado
Pela nossa desconjuntante presença

E se um dia essa graça se aproximar
O que poderíamos fazer
Para a conter?

10 de novembro de 2025

Maculado

A minha poesia hoje é torpe
E causa enjôo em quem a ouve
Me faço repugnante
Porque não consigo viver
Tão consoante ao que desejam
Na Terra suja em que piso

Atolei-me em um charco de lodo
E todo que quer me resgatar
Suja-se

Queria ser diferente 
Disso em que me encontro
Tão fétido, tão agonizante, 
Por homens que sujam toda beleza

Beleza de que me serviria 
De inspiração para a escrita
Mas meus olhos sujos e escurecidos
Se perdem mais na sujeira
Da torpeza humana 
Que parece sem fim.

Quem dera pudesse ver
Mas sou motivo de distância
Um enxotado leproso
De uma antiga vila

Sou amaldiçoado e praguejado
Mesmo pedindo socorro
A vila continua em seu marasmo
E eu só queria um acaso
E um ocaso 
Para esse sentimento de repugnância
Em mim.

9 de outubro de 2025

A verdadeira maestria

Ele está em cima do palanque
Como se todos o ouvissem
Imperativos esbraveja
Como se fosse o maestro de uma orquestra
E tivesse em si
A certeza dos instrumentos a lhe ouvir

Mas a natureza corre em outra orquestra
De sons que avessos ao tempo dos solfejos
Faz de si a própria maestra
De pássaros, rios e riachos
E ventos em topos de altas montanhas
E mares revoltos em tempestades

Aqui ele não passa de uma anedota
As altas ondas imponentes 
Silenciariam todos seus instrumentos 
Sua orquestra soaria como toda descompassada

Pois sua música é vaidade de sentido
Ao som das ondas do mar sob o vento litorâneo
Assim, que tens em ti tolo ser humano
Que acredita guiar todos 
Como o Flautista de Hamelin?

O vento ao quebrar um galho árvore
Desdenha de sua baqueta.

30 de agosto de 2025

Tolice

Eu me pergunto se escrevo poesia. Minha vida é cheia de recaídas em algo que não sei explicar. Eu estou sempre de recaída na existência. Tudo é um convite para o fracasso. Nunca consegue-se dar o melhor de si, porque o melhor é sempre insuficiente. Espera-se tudo do ser humano em um mundo que parece uma piada mal contada. 

Então eu escrevo aqui e chamo isso de poesia, minha vã tentativa de capturar algo da vida que não pode ser contado senão por metáfora. Uma parábola da existência. Mas isso é pretensioso. Ainda que a existência pudesse ser capturada em uma parábola, que desse conta dela, não seria capturada, pois ela escaparia, como tudo escapa de nós, no tempo. Os pintores talvez capturem algo e pintam, a fotografia, mas é momentâneo e parcial. A palavra carece de potência, e na escrita de alguém é apenas uma tentativa de exorcizar um demônio estranho, um tempo descaracterizado naquele momento, naquela mente.

Quem pode ver o que está oculto nas linhas da mente do artista? Quem pode acessar o que é desconhecido para si mesmo, que se desfigura e transfigura e se perde a todo momento no fluir do rio do tempo?

21 de agosto de 2025

Apagando

Enfraquecido e angustiado
O que eu poderia dizer
Encolhido em mim
Tudo é mais poderoso que eu
O Universo
Os mares
Deus
Tentações 

Não tenho vontade de nada enfrentar
Estou na lona da vida
Atingido por um direto de direita

Minha embarcação está estraçalhada pela tempestade da vida
Não há farol, nem porto, nem estrelas...

Escreveria eu e isso me salvaria de mim?
O Messias, o Cristo de Deus, pode me salvar de mim?
Não me resta nenhuma força mais.
Sou um pavio que fumega.

Despido

Estou exposto
Que me importa estar nú
Que me importa estar envergonhado?
Que importa o vexame público
O escárnio
Se meus ombros estão caídos
E meu joelhos trôpegos?

Me aproximo de gente
Mas pareço alheio a tudo,
Toda Filosofia se desfaz
Diante de mim
Ela não aparece como a Boécio
Uma alma nobre.

Mas sou plebeu e ralé
Com pretensões a poeta, a procurar a Filosofia
Sou um tolo
E a sabedoria está a um abismo imenso de mim
Abismo que, cambaleante, pareço querer cair
E me esquecer de quem sou, fui, serei

Esquecer, nada faz esquecer
Tudo precisa existir, pensar, lembrar 
E adoecer
Abraçarei essa existência
Apesar de tudo

Nada sou,
Poeira pequena no tempo e na eternidade
E antes esse poema, essa pretensão 
Não existisse
A luz é boa
Mas meus olhos estão entenebrecidos para ela
Cego.
Miserável, cego e nú.

11 de agosto de 2025

Inquietude

Aflito sou
Angustio-me dia após dia
Mesmo o meu prazer
Me castiga

Queria eu que bons momentos
Não acabassem
Mas volto ao meu tédio
Onde minha ansiedade se banqueteia 

Queria eu que pouco me bastasse
Mas meu coração é um mar revolto
Que se inquieta e revolve-se
Em si mesmo 

Um tolo que anseia
De amor e paz viver
Mas temos nossa parte em lutas e aflições 
E de que poderíamos nos queixar.

O paroxismo da vida
Que agudiza-se mais e mais
E seu vértice aperta e ponteia
E na dor voltamos a nós mesmos

Então, anseio pela manhã
Numa noite escura e fria
E a Lua se envergonha
Pois não pertence, hoje,
A romances.

22 de julho de 2025

Possibilidade

 Olhar e procurar

Num olhar a vivacidade do amor

Não por atração apenas

Mas pela possibilidade


Possibilidade de sorrisos

E risadas, e conversas...

Sérias, talvez,

Mas procurando entender


O que o coração diz

De ti?

Poderia falar dos seus cabelos

E como vejo beleza em você


Mas como saber da alma

Sem conhece-la


E se não for o que poderia ser

Que desvaneça levemente

Como um chuva passageira de verão.

19 de julho de 2025

Lepra

 Minha solidão 

A que se deve, se busquei companhia

Se busquei amizade?

A que se deve o apartar-se se me aproximei?


Tal como leproso, estranho, esquisito

Me viram

Para que é para quem pertenço? 

Exiliram-me.


Estou triste e vejo o absurdo do mundo

A cada dia a violência vivida

E vista infligida no outro 

De quem se esperava acolhida


Assim, me afundo em mim

E me amorteço, e espero

Que minhas fracas preces sejam ouvidas

E essa chama em mim, quase apagada


Reviva, e não me sinta tão apagado

Tão distanciado

E quebrado

16 de abril de 2025

Não sei

Eu não sei o que escrevo
Não sei se sou poeta
Não sei quem sou
Se mudo hoje e amanhã

Mas amei
E não sei como amei
Não sei como aconteceu
E como morreu

Dentro de mim

Deus...
Não consigo pensa-lo
Sem meu coração sentí-lo
É preciso que os dois estejam de acordo

Mas minha mente quer meu coração 
Como um tolo apaixonado
E meu coração não entende
O que minha mente quer

Minha confusão
Habita meu coração
Que anseia tanto que quase se vira do avesso
Tentando achar
Sabe-se lá o quê.

Ele quer descansar no silêncio
De um planeta inóspito
Um bom tempo longe das turbulências da Terra
E de alguma forma
Entender
O que a mente se debate e não entende.

12 de abril de 2025

Desdenhado humano

Destreza e desempenho
Certeza da máquina
Tática e matemática
Resultado para descomplicar
O desenvolvimento preciso
No desempenho requerido

O desemprego e o desvalido
Desalojado do mundo
Desassossegado na vida
Desmoronado
E o desespero
Desfigurado

Na desumanidade

14 de março de 2025

Debaixo do sol

Aflitiva vida
Que sempre quer mais de nós
Mais do nosso suor
Nos expreme a cada dia

Essa vida dos homens
Que não nos deixa contemplar as estrelas
Coloca sobre os pescoços nus
Um jugo de ferro

Olhamos o chão sempre
Com o coração apertado 
Prestes a desmaiar
Combalido de sofrimento

Não consegue nem ver
Quem são os feitores que o castiga
E permanece na marcha rumo à morte
Sem saber o que é viver

O pouco de ar que se toma,
É para voltar a ser submergido
Em torrentes de águas sujas

Só quero amar
E me libertar desse jugo
Que me força à vida
Sobrevivida.