Quando alguém escreve coisas de sua alma expressando-as num papel, expressando-as num texto, se vê num espelho. Essa é a razão desse blog chamar-se Espelho de Tinta. Deixe um comentário seu e obrigado pela visita.
20 de outubro de 2022
Contorcendo-se
8 de outubro de 2022
Fingindo
Eu me finjo poeta...
Mas não posso fingir assim tanto,
Já que outro poeta fingiu que era dor,
A dor que ele sentia...
Aqui é meu único canto,
Um escape do mundo.
E mesmo assim eu finjo fugir.
De um mundo que é encanto,
Desse não quero fugir,
Porque dois filósofos
Me disseram que era bom
O espanto.
7 de outubro de 2022
Mar da solidão
07 de outubro de 2022
Foi você quem primeiro me deixou
Então, meu coração se apertou
Afogou-se no mar da solidão
Me apoiei em um pedaço de madeira
Para não me afogar por completo
Não houve quem de mim sentisse pena
Então fiquei só, no mar da solidão
A noite está muito escura, e esse mar é frio
Mas ainda vejo as estrelas
Vejo-as resplandecer
Na minha noite mais escura
Penso naqueles que, em momentos
De amor terno, escolheram para si estrelas
Para lembrar de um amor
Mas não tenho mais amor em mim
Só um coração apertado e triste
Pequenas esperanças
Que se esforçam aqui comigo
Para não se afogar
Não morrer de hipotermia
Nesse mar da solidão.
4 de setembro de 2022
Torpor
Apaixonar-se
Afetar-se pela sensibilidade
Da beleza em ternura
E inocência
Perder-se,
por quantas vezes?
Iludido por meus pensamentos
Então aquela beleza
Se desfaz, tudo se embota
E o coração, mais uma vez ferido
No mesmo lugar
Ele fecha a ferida
E não sente nada mais ali
Ele mesmo entra em um torpor
Que não quer estar
E se comunica
Na sua miséria
Com olhos mortos
Cansados
Tem medo de procurar apenas no corpo
O que encontraria em outro coração
Em outra alma
A chave de uma prisão
Que cada vez se escurece mais
Preciso sair
19 de julho de 2022
Desencanto
Desencanto 19.07.2022
Não há mistérios na noite
Está tudo bem
Mas meu coração é turbulento
Um mar revolto
Mas tudo é desencanto
Não existe mais candelabros
Nem fogo de luz de velas
Nem histórias inéditas
Envoltas em contos de fadas
Todos nós, cinicamente
Nos perdemos
Nikola Tesla
Santo padroeiro da luz elétrica
Nós homens nos tornamos seus devotos
A ciência erigimos um altar
Estrelas brilham
Mas suas luzes de fantasmas
Se tornaram fótons, nêutrons, elétrons
E hoje nas escolas
Tudo se resolve
Com contas, equações
Não tem mais mágica em nada
Sabemos de tudo
Somos donos de toda razão
Nos tornamos em desencanto
Mas bem que inventamos nossas histórias
Envoltas em contos de fadas elétricas
Quem dera nossos antepassados nos vissem
Veriam maravilhas ou caçoariam de nós?
Cá estamos,
Envoltos nas eletricidades
E elétricos tomamos calmantes
Não apaguem as luzes
Tememos assombrações
Calma, não mais,
Está tudo explicado,
Basta abrir o buscador
Respostas encontramos
Nenhum tesouro perdido
Piratas, eles pirateiam bytes.
26 de junho de 2022
A você que chegou aqui
Seja bem-vindo.
Aqui é um local de desabafo. Aos dezesseis, dezessete comecei a escrever, na maioria versos.
Escrevia para desabafar.
Já escrevi poemas de guerra, sem nunca ter enfrentado uma, talvez apenas metaforicamente. Foi uma fase. Ouvia Doors, Legião Urbana... "Somos soldados pedindo esmolas, e a gente não queria lutar..."
Eu viajava no filme do Val Kilmer na pele do Jim Morrison... como eu disse foi uma fase.
Naquela época tinha assistido o Woodstock no videocassete. Tinha admiração pelos hippies, para depois acha-los fedorentos junto com o Cartman em um episódio do Southpark.
Queria escrever poemas, ou prosas, ou simplesmente escrever coisas alegres.
Ouvir estrelas, escreveu Olavo Bilac, acho que só conheço esse poema dele...
Enfim, leia poesias ou escritos mais antigos. Esse blog existe desde 2006, tinha meus 26 para 27 anos. Ainda existia Orkut rs.
Não postava e ainda não posto nada diariamente.
Até mais.
“O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te conceda graça; o Senhor volte para ti o seu rosto e te dê paz." Números 6:24-26 NVI
"Deixo a paz a vocês; a minha paz dou a vocês. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe o seu coração, nem tenham medo." João 14:27 NVI
Desalojado do mundo
Onde está a Matrix?
Não há pílula vermelha nem azul,
Não há.
Sem cesto,
Sem mensagem de desamparo ou desespero,
Nem orfanato.
Sem destino,
Sem ponto de partida ou chegada.
Não é à toa que o louco disse:
Matamos Deus.
Não há rio, nem mesmo seu curso.
Não há Egito para fugir.
Não há Jesus dormindo na manjedoura.
Herodes, você sabe quem ele é?
Chora a viúva de Naim no cortejo fúnebre
De seu filho que sequer nasceu.
10 de junho de 2022
Beijos esquecidos
Parece que tudo esqueci em um beijo
Que não soube amar
O tempo foi passando e eu sozinho
Outro beijo me esqueceu
Assim passei sem ter a quem amar
Isso é uma vida miserável
Não amar alguém
Tocar a pele, os cabelos
Fazer de um momento só
A eternidade
28 de abril de 2022
Moralismo e religiosidade
afastam as pessoas de Deus
A religiosidade é o que mais afasta as pessoas de Cristo, todos nós sabemos
disso, mas o que é essa religiosidade?
Veja bem, Jesus disse que muitos
fariseus tomavam a chave do conhecimento, mas não entravam no Reino de Deus e
não deixavam entrar aqueles que queriam. Uma das características da
religiosidade é ter conhecimento, mas não misericórdia. Quando Paulo vai tratar
do assunto dos ídolos, ele mesmo diz que ele e os coríntios tinham
conhecimento, mas o conhecimento incha, deixa a pessoa orgulhosa, o que edifica
é o amor.
Quando Jesus, convidado por
Mateus para um banquete, se assentou e comia com os publicanos e pecadores, foi
julgado por religiosos, mas ele disse que queria misericórdia e não sacrifício,
que veio como médico para os pecadores, não veio para os sãos. Ele citava o
profeta Oséias, que dizia isso ao povo de Israel, que melhor é misericórdia que
sacrifício e o conhecimento de Deus mais do que muitos holocaustos.
Quando a Bíblia define Deus,
diz que ele é amor, mas no meio evangélico diz que ele é justiça também, como
se o amor fosse algo conivente, esse tipo de amor não é o amor de Deus, Deus é
amor e nesse amor está incluso tudo que Ele é, como o apóstolo disse no seu
hino ao amor cristão, “agora permanecem essas três coisas, a fé, a esperança e
o amor, esses três, porém o maior deles é o amor.”
Quem afasta as pessoas do
conhecimento de Deus são as próprias que dizem ter conhecimento dele, e era
contra essas pessoas que Jesus disse muitas coisas, porque elas não reconheciam
nele o amor de Deus.
São Tiago também diz que a
misericórdia triunfa sobre o juízo e que Deus é o Legislador que pode salvar
uma pessoa ou julgá-la, não somos nós os legisladores. Todas as vossas coisas
sejam feitas com amor disse o apóstolo, até mesmo para repreendermos alguém
temos que fazer sem juízo de condenação, porque Cristo mesmo disse que não veio
para condenar o mundo, mas para salvá-lo.
4 de março de 2022
A Culpa é Sua Somente
No capitalismo a ideia de culpar o indivíduo por suas mazelas é recorrente. O sistema é doente, portanto o que ocorre com o indivíduo é em grande parte culpa do sistema. Porque digo isso, estou tomando eu mesmo como exemplo. Quero melhorar da ansiedade e não consigo, quero dormir à noite e a ideia de não conseguir dormir à noite me assombra, ao ponto de tomar remédios para dormir e ter criado resistência. Aí falam em higiene do sono, bom, se você não dormiu é porque não está fazendo as coisas certas para dormir, você pode substituir isso, se você não é bem sucedido é porque não faz as coisas certas para tanto.
Talvez não seja o capitalismo, mas a vida moderna que adotamos nesse regime, se fosse outro regime social talvez desse no mesmo.
Tudo gira em torno de fazer o certo para ter os resultados corretos.
E você se culpa. A depressão se instala e você se culpa, a ansiedade se instala e você se culpa. Tudo é culpa sua, que não fez nada direito.
Quem ler isso aqui, pode ser que esteja errado, e que sua vida normal seja o melhor remédio. Você consegue dormir bem e ir trabalhar no outro dia. Acho isso bom.
Mas para mim, as perspectivas não tem sido boas.
Aí pode perguntar para mim, você não acredita em Deus?
E eu respondo: Qual Deus?
Tudo é culpa sua, tudo é culpa sua, tudo é culpa sua.
2 de dezembro de 2021
Livre-Arbítrio
Que raio de livre-arbítrio temos se com ele podemos nos matar?
Isso não é livre-arbítrio. Não é nem arbítrio, nem livre.
20 de novembro de 2021
Eu não sei...
Ano passado achei que tivesse achado o que queria para mim. Mas hoje me encontro perdido e fraco. Sem saber o que vou fazer amanhã. Talvez dar uma organizada na cozinha, limpar a geladeira e dar uma organizada nela enquanto ouço música.
Eu fico triste por inúmeras coisas, como se tivesse de luto por algumas coisas que não aconteceram como eu esperava. Auto-complacência não ajuda ninguém, é preciso olhar para frente. Mas às vezes é difícil combater essa tristeza. Ser rotulado com um Transtorno de Ansiedade e não saber de mais nada. Como um vaso estilhaçado no chão, podem até colar as peças, mas não vai ser a mesma coisa.
Não quero sentir pena de mim mesmo.
6 de outubro de 2021
Meio copo vazio?...
Tem vezes que sinto como se não tivesse força alguma, como se não fosse conseguir viver e que minha vida aqui nessa Terra não tem propósito algum, que ela irá passar sem propósito. Embora aqui ou ali eu tenha feito a vida de alguém alegre, também devo ter feito decepção, tenha causado decepções. Sou isso, um ser humano, talvez mais afortunado que alguns e mais desafortunado que outros.
Quem aguentaria a vida debaixo desse sol, se Eclesiastes chega a considerar mais felizes aqueles que já morreram do que aqueles que ainda vivem, e melhor que ambos é aquele que ainda não nasceu que ainda não viu as injustiças desse mundo (Eclesiastes 4). Em vão nos inquietamos (Salmo 39:6). Eu sei que nada sei sobre o amanhã, apenas gostaria que ele fosse melhor que hoje, que houvesse mais sorrisos no lugar das lágrimas que derramamos às escondidas.
Sou uma sombra, um vapor, um hiato no tempo e no espaço. O que esperar de tão pouco tempo nessa vida, assistindo a uma ampulheta cada dia mais cheia de areia em sua base, e vendo que parece ter sido vão.
Meu humor não colabora enquanto escrevo, talvez esteja vendo o meio copo vazio, talvez amanhã veja com outra perspectiva, pode ser que sim, esperarei que sim...
Deus abençoe e seja sempre misericordioso conosco, lembre que somos pó (Salmo 103:14)...
27 de março de 2021
Coragem
29 de agosto de 2020
Ainda procurando?...
É, ainda procuro seu sorriso
Para completar a luz
De um dia ensolarado
Um dia, para ser meu e seu
Na praia, sob a luz da lua
E a benção de Deus
Parece que de novo
Bati na porta do coração
Que não podia me atender
Porque não era do jeito
Que se esperava
Pergunto agora
Onde está você?
Que eu saiba te encontrar
Com a ajuda de Cristo
Para sermos um e um Nele.
É só o que posso pedir
E me esforçar para não me entristecer
Sabendo que me esperas
Assim como eu quero sempre te esperar
E finalmente encontrar o abraço
E os carinhos que sempre procurei
17 de agosto de 2020
Sepulcros
Nossa vida não é nada
Pretendemos que ela seja algo
Mas não é
Somos tirados do pó da terra
E para lá tornaremos
A nossa vida, nossos atos
Serão nada, quem sabe uma lembrança vaga
Nos cemitérios que voz é ouvida?
Nenhuma.
São sepulcros calados
Que no entanto dizem:
Que vida levas?
6 de agosto de 2020
Gravidade
Cada tempo desperdiçado
Me sinto em cacos
Um vaso de barro estilhaçado no chão
Eu me sinto assim
Fora das formas possíveis
Distorcido
Cada dia que me sufoco em minha solidão
Que sinto meu coração apertar
Queria estar a muitos quilômetros daqui
Sozinho e perdido no espaço sideral
Já que fiz mal a mim fazendo o mal
Que desconheço tanto o bem
Talvez estivesse melhor
Longe de tudo que possa me fazer pensar
Olhando alguma estrela distante
E todos seus anos de vida
Passarem por meus olhos
Vê-la condensar-se em toda sua gravidade
Se tornar uma anã branca
Morrer
Um dia não vou existir
E todos meus dias serão como sempre foram
Nada, vaidade,
Que vida foi tão diferente da minha?
Que solidão que dói em mim?
Sei que existe um Deus no Céu,
Que prometeu estar comigo,
Mesmo assim me sinto sozinho,
Sentindo que seria bom,
Estar longe e comigo,
Para, de alguma forma,
Me condensar,
Na gravidade solitária,
Do meu coração.
17 de julho de 2020
O problema do dom-juanismo por Emil Cioran / "e serão ambos uma só carne." Mc. 10:8
O Dom
Juan não se satisfaz com uma mulher apenas. No entanto, o plano de Deus para
homem e mulher é a realização no casamento. “Aquilo que uniu Deus, não separe o
homem.” (Mateus 19:6)
Não
sei, talvez o problema exposto por Cioran seja o da multiplicidade. Como há uma
infinidade de coisas, um infinito para nós, queremos a multiplicidade,
experimentar a vida intensamente. Nada há de errado nisso, desde que seja
legitimamente.E este é outro problema: O que é legítimo? Penso que tudo que não afete o outro de forma a causar nele prejuízo, mas isso é assunto para outro texto.
O
problema do Dom Juan é que ele não consegue ver em uma só mulher a capacidade
do múltiplo infinito do mundo, já que ela será o ser ao qual será seu amor
direcionado, buscando a síntese em uma só pessoa, ou seja, a univocidade. Seria isso possível?
Cioran diz que aquele que ama várias mulheres não ama nenhuma, pois seu amor
vai embora assim que se satisfaz e volta a ter desejo por algo novo, uma nova
aventura.
O problema do desejo insatisfeito na multiplicidade da vida está nos filósofos antigos, está em Agostinho, por exemplo, que lança a felicidade, a completude, nos braços de Deus. Nada mais correto a ser feito! Porém, tudo que provém de Deus é satisfatório e consistente, o próprio Agostinho fala da frugalidade, que é ser frutífero, que é ter consistência, que é proceder do Ser que é Deus, que é o Sumo Bem. Logo, aquilo que procede de Deus é bom e duradouro. Não é o próprio Deus, mas sendo procedente dele, pode ser usufruído com graça no coração, assim como quando comemos um fruto e o saboreamos, e, por ele, agradecemos.
Não há satisfação na multiplicidade dispersa, mas na união da multiplicidade com o uno que é o Deus único e trino.
João Batista disse que o homem (um ser humano) não pode ter coisa alguma se do céu não lhe for concedido. (João 3:27) Ou seja, voltamos à questão da frugalidade de Agostinho, tudo que procede de uma raiz santa é santo, tudo que procede de Deus é santo, bom e digno de ser usufruído com graças a Ele. Assim também o conhecemos, e conhecer a Deus é um processo contínuo.
O texto de Emil Cioran, em Os cumes do desespero:
“O amor, quanto mais intenso e concentrado, mais se limita em extensão, mais exige um caráter individual e único. Assim acontece que as grandes paixões descobrem o absoluto numa mulher, que, na mais reduzida análise, mal pode salvar sua própria existência biológica. Considerado de fora, o amor é tão absurdo que não pode ser apreciado senão por uma absurdidade. Por isso, sobre o amor não se podem emitir considerações, mas apenas espantos.
Dentre milhões de mulheres devo escolher uma só, limitar-me a apenas uma? Seria necessário que ela fosse a cada momento outra, capaz de tanta transfiguração, que ressurgisse nova e improvável. Quantas pessoas tem paixão tão grande, para a cada momento ver luzes novas e encantos modificados? A mulher é uma criatura de parcas possibilidades, ela não resiste às exigências de um homem torturado, para quem o amor é apenas uma forma de realização de vida. É necessária uma paixão imensa como a imbecilidade para poder amar uma só mulher. Ao sentirmos porém a insuficiência de todas as formas de vida, quando nos satisfaz apenas o que é desvio que cresceu paradoxalmente e se desenvolveu com exagero, que mais podemos encontrar numa só mulher? Ao decidirmos trocar de mulher, diante da recusa de surpresas psicológicas é impossível não sermos enfeitiçados pelo jogo de fisionomias, pela diversidade de expressões, é inevitável buscarmos apaixonados um mistério psicológico – que jamais encontramos, por não existir. A sensibilidade feminina é demasiado periférica e receptiva para dispor dos recursos inesgotáveis de um mistério. O encanto absurdo do amor autêntico, do amor intenso, é o de encontrar mistério numa só criatura, descobrir – ou melhor, inventar – um Infinito numa existência individual de uma desconfortante finitude.
Ama várias mulheres quem não pode amar. O dom-juanismo é a vantagem e o defeito daqueles que se desentenderam com Eros, mas que ainda têm suficientes reservas de vida para não chegar à impotência psíquica ou erótica. A necessidade de variar os aspectos do mundo, gerada por um tédio orgânico, leva, no terreno do amor, ao dom-juanismo. Todos os homens que levaram a vida interior aos seus últimos limites, que se desesperam pelo sentido da vida e que se torturam nos cumes, tornam-se fatalmente um Dom Juan, assim como seus antípodas, homens estreitos, desprovidos de vida interior, com capacidades extremamente reduzida de sentir e compreender. A vida apresenta essa estranha dualidade de reunir na realização exterior dois tipos opostos de pessoas: os deficientes e os demasiados. É necessário um sentido psicológico para perceber se alguém chegou a essa respectiva forma de vida por demasia ou por debilidade. Um pode ser viciado e imoral por deficiência, outro por excesso; um pode chegar ao desespero por incapacidade, por falta de resistência e inteligência, outro por excesso de problemática e interioridade.
As pessoas se equivocam ao situar no mesmo plano de vida
anímica todos os homens que se parecem, por fora e na aparência, em suas realizações.
O dom-juanismo é interessante e sintomático apenas naqueles em que ele surge
como fruto do desespero, de uma reflexividade e de preocupações íntimas demasiado
intensas. Nos cumes do desespero, quem não é dom-juan não assimilou organicamente
o desespero, não viveu intensamente os estados limítrofes, os ardores e os consumos
supremos, mas experimentou-os artificialmente, como num vago pressentimento.
Ser um homem de grandes solidões significa amar todas as mulheres. E amar todas
as mulheres significa não amar nenhuma. Os que fazem a filosofia da vida não
passam de diletantes do Eros, que depositam demasiada paixão nos problemas da
vida para ainda terem alguma paixão pelos seus aspectos. Nos cumes do desespero,
a superficialidade no amor é uma superficialidade profunda.” (pág. 142 – 144/ CIORAN,
Editora Hedra)
Eu
sempre recomendo que uma pessoa leia o autor e tire suas conclusões pessoais do
que lê. Receio causar injustiça ao autor ao colocar no texto um significado
que ele não quis colocar ali. Todavia, não posso deixar de ver duas coisas no
texto do Cioran: a pluralidade e a univocidade. A pluralidade é a dispersão do
homem relativa ao amor, a univocidade é a concentração desse amor em uma mulher
apenas.
Toda mulher vítima de um Dom Juan, quer ser apenas amada por ele, não
quer rivais, toda sedução capaz de ser realizada por um Dom Juan precisa ser
concentrada nela. O infinito se manifesta na pluralidade da existência, nas
várias mulheres que o Dom Juan quer possuir, porém, aquele que conquista apenas
uma mulher e a quer todo dia nova, todo dia mais bela, se esforçará para ver
nessa mulher todo o infinito, toda pluralidade, inventar nela, se necessário for, o mistério. Ainda que ela não seja capaz de muita
transfiguração, como diz Cioran, o homem se esforçará em seu amor para conseguir
ver, nela, o amor que procura.
O
homem que conquista a mesma mulher todos os dias, se dispõe a um esforço que só
pode ser advindo de um amor terno e insistente, que só pode ser visto no modelo
de amor descrito na Bíblia Sagrada, exposto pelo apóstolo Paulo, o amor entre
marido e mulher, recorre à figura de relacionamento entre Cristo e a Igreja, e
nesse sentido o amor do homem sobrepõe a tão somente o amor erótico, ele é amor
ágape, amor que luta pela preservação e proteção, amor redentivo. É necessário
apenas que leiamos o texto da carta de Paulo aos Efésios.
“Te
desejo muito além do prazer...” Roupa Nova
Existe o dom-juanismo feminino, mas não estudei o bastante para falar. E na questão da fragilidade emocional, todos nós somos frágeis, tanto homens como mulheres estão sujeitos ao tipo sedutor que os faça sofrer por amor. Todo filósofo(a) deve ser visto, ao meu ver, como filho(a) do seu tempo.
"E serão ambos uma só carne."
"porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher.Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe [e unir-se-á a sua mulher], e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem." Marcos 10: 6 - 10 NAA
16 de julho de 2020
Gratidão
15 de julho de 2020
A máquina
Porque o ódio me circunda
Esse mundo tem que ser diferente
E tudo tem de ser sentido como oposto
De tudo que deveria ser
Até eu me sinto estranho a mim
Com esse ódio circundante e ácido
Corroendo minha carne
E minha alma
Sou nada aqui
E quem se importa
Sou alguém feito na máquina
Mas alguma coisa quer em mim transcender
Isso tudo que se repete
Na linha da produção da existência
Linha de produção da existência
Saindo igual
Linha de produção
Existência sem significado
Produtos para serem consumidos
Reciclados
É assim, o ódio do aço e da pedra
Do dia esquecido e marcado no ponto
Marcado no ponto
Repetido até a exaustão
Pra começar de novo
Na linha de produção
Repetindo
Como o sol que se repete em sua aurora
Nada de novo
Força para comer
Comer para força
Até exaurir
E morrer
Sem beijos
Sem paz
Que se pode ouvir senão um clamor?
Salve-nos dessa escravidão rigorosa
Seja contra a mão daquele que nos oprime,
Daquele que se alimenta
Do nosso suor
Para se banquetear
Enquanto lutamos pelo mínimo
Feitos para a vaidade
De um tempo que sempre se perde
E se esvai no próprio tempo
Frutos da máquina
Nos tornamos um com ela
Hoje não é dia para beijos carinhosos de namorada
Hoje acordei sendo odiado.
Mas não quero odiar
Ajuda-me ó Deus,
A ser como o sândalo,
Que perfuma o machado que o fere.



